De Londres à Valle di Cadore: a última aventura
A viagem pela região do Vêneto esteve entre as melhores coisas que eu tive a oportunidade de fazer. E não foi apenas porque a Itália é maravilhosa, cheia de lindas histórias e belas igrejas e castelos. Mas porque estar lá me proporcionou a possibilidade de reencontra grandes amigos que residem e trabalham na Europa. O primeiro que tive a oportunidade de encontrar o Danilo Calegari. Estudamos juntos quase a vida inteira em Içara e na maior parte do tempo tínhamos objetivos em comum. Então passar uma tarde conversando com ele num dos diversos cafés existentes no centro de Verona, circundados por prédios históricos – como o palacete da família que abrigou Dante Alighieri, quando este era perseguido em Florença – foi uma experiência sem preço.
Verona é a província que detém grande parte dos brasileiros da região carbonífera. Muitos dos jovens que estavam no grupo comigo também marcaram para encontrar pessoas conhecidas e parentes por lá.
Em Bassano Del Grappa, uma das cidades mais charmosas e com uma das mais belas histórias, entre as cidades que visitamos, nos encontramos novamente. Dessa vez porque ele iria me acompanhar até o Aeroporto de Treviso. De lá eu seguiria sozinho para Londres, onde reencontraria outros grandes amigos, que há muito não via. O mais interessante nessas aventuras individuais é que nós acabamos sempre conhecendo gente nova, com uma infinidade de histórias emocionantes, durante o percurso. Ainda no aeroporto, conheci uma ítalo-inglesa, chamada Danielle, que, como eu, visitava a região de seus antepassados.
Meus amigos Ulisses Xavier e Diego Dagostim me aguardavam no aeroporto. No caminho para a casa do primeiro, paramos para encontrar com uma outra pessoa muito especial que passaria o final de semana com a gente, Roberta Novelli. Ela vinha de Oxford, quase 2 horas distante da capital inglesa.
Londres é uma cidade única. Como Veneza, que eu havia visitado dias antes. Mas mesmo assim, era diferente. Por lá chove grande parte do ano. E faz frio também. Nos encontramos no sábado a tarde com um grupo maior de brasileiros, entre eles: Fred Matiola, André “Loko” Felisberto e meu primo Álvaro De Luca Borges. O local era um pub num iate, de frente para a London Eye, que por muitos anos foi a maior roda gigante do mundo. Jogamos muita conversa fora, claro. Foi tudo maravilhoso.
Mas nesses três dias pude viver a vida dos brasileiros que vão para fora. E posso assegurar com certeza que existem dois modos de tocar a vida por lá: o primeiro é viver normalmente, com gastos, moradia apenas para a família, carro, trabalho, rancho mensal, escolas. Porém, não se guarda nada. Nesse modo, você tem uma ótima qualidade de vida. Muito acima do que seria possível no Brasil. Mas isso é válido para quem não pensa mais em retornar. O segundo modo é trabalhar para arrecadar dinheiro e oportunizar uma vida melhor aos familiares no Brasil. Esse pessoal economiza até centavos de libra quando possível. Vivem em várias pessoas numa mesma casa. Trabalham muito e vive em condições piores. É uma vida bem mais difícil. Até mesmo quando comparada à que tinham no Brasil.
Enfim, na madrugada de domingo para segunda, após uma visita em outro Pub e um excelente jantar no restaurante onde o Diego é caixa, fui ao aeroporto. Centenas de pessoas se amontoavam pelo chão, dormindo, aguardando o horário dos vôos. Eu fiz o mesmo. Meu vôo partia apenas às 6h30 da manhã.
No avião aproveitei para tirar um cochilo. Quando acordei já sobrevoávamos os Alpes e o dia estava lindo. Foi uma visão impressionante. Ao aterrissar em Treviso, dessa vez sem o Danilo para me auxiliar, tive que me virar para conseguir um ônibus até a estação ferroviária. E até que me sai bem. Tomei gosto pela coisa. Vi como, ao contrário do que eu ouvia falar no Brasil, os italianos são simpáticos e receptivos. Na estação ferroviária descobri que o trem para Belluno, onde eu reencontraria meu grupo, saia apenas as 16h. E eram 9h30 da manhã! Com o auxílio de um italiano, xeretei na máquina de tickets e observei que se eu pegasse um ônibus até Montebelluna, uma pequena cidade à 30 km de onde eu estava, e de lá pegasse um trem, chegaria ao meu destino às 13h30. Foi o que fiz. Com a ajuda de um casal de idosos de Veneza, que fizeram questão de me levar na parada correta, cheguei à Belluno no horário previsto. Ao chegar, não encontrei minha programação com o nome do hotel. Fui à uma Lan House para imprimir uma nova via.
Para a tristeza de meus pés, vi que o Hotel Bel Sit, ficava na Província de Belluno, mas na cidade de Valle di Cadore. Isso dava mais uma hora de ônibus Alpes acima. E o ônibus que partia de Belluno ia apenas à Tai di Cadore, uma cidade vizinha. Sem opção, embarquei.
Os passageiros, todos muito solícitos e simpáticos, me auxiliaram no local. Eram 17h e estava ventando muito. O frio era intenso. Coisa de 8 graus negativos. Faltava ainda uma hora para o ultimo ônibus – que me levaria a Valle di Cadore – chegasse. “Vou congelar se ficar aqui todo esse tempo”, lembro de ter pensado. Com informações das demais pessoas na parada, descobri que Valle ficava a apenas 4 quilômetros na mesma estrada. Decidi ir andando para esquentar. Meu celular estava sem bateria e as casas de comércio iam fechando as portas. No caminho para Valle encontrei o hotel. Cheguei ainda antes do grupo, que estava em Longarone. Fiz o registro e tomei um merecido banho de banheira. Apesar da dificuldade de fazer o trajeto sozinho sorri orgulhoso e não tive dúvidas: “Foi o melhor trecho da viagem”.